4 atitudes positivas que “estragam” sua felicidade no trabalho

De motivação a senso de responsabilidade, entenda o “lado B” de comportamentos tidos como saudáveis e recomendados por especialistas em carreira

4 atitudes positivas que estragam sua felicidade no trabalho

Profissional infeliz (kieferpix/Thinkstock)

Você diria que profissionais responsáveis, ambiciosos e motivados podem acabar sabotando sua própria felicidade no trabalho? Por mais insólita que pareça, essa possibilidade existe. E mais: nem é tão remota assim.

Tudo depende das razões por trás de comportamentos aparentemente inofensivos ou até saudáveis, explica o psicólogo israelense Tal Ben-Shahar, que ministra um popular curso sobre felicidade na Universidade de Harvard.

“A eletricidade é uma coisa ruim?”, questiona o professor em entrevista a EXAME.com. “Ela é ótima quando é usada para trazer mais luz para as nossas vidas, mas é péssima quando seu uso é a execução de um inocente em uma cadeira elétrica”.

A depender da sua finalidade, certas virtudes frequentemente recomendadas por especialistas em carreira também podem ter uma faceta sombria.

“Se você busca ser um profissional exemplar só porque deseja ser rico ou admirado, mais cedo ou mais tarde você terá problemas”, diz Ben-Shahar. “Se, por outro lado, você tem essa postura porque quer fazer o bem e ter uma vida cheia de significado, terá mais chances de ser feliz”.

Confira a seguir 4 atitudes positivas que podem comprometer a sua satisfação com a carreira:

1. Motivação

Ser capaz de encontrar razões fortes para acordar na segunda-feira é uma qualidade rara e absolutamente necessária em tempos difíceis para o país. Em excesso, porém, essa atitude pode levar à estafa ou burnout.

“Olhe para as startups, que são campeãs de motivação”, afirma Alexandre Teixeira, autor do livro “Felicidade S/A” (Arquipélago Editorial). “Muitas delas são notórias por suas jornadas de trabalho exageradas e pelas frequentes histórias de esgotamento físico e mental na equipe”.

Os hipermotivados excedem seus próprios limites voluntariamente. A situação se aproxima, pelo menos em parte, à do workaholic — que enxerga o trabalho como fuga para outros aspectos disfuncionais de sua vida.

Para Teixeira, um símbolo do problema são as hackathons, maratonas em que profissionais de tecnologia passam horas, dias ou até semanas resolvendo desafios de programação. “É claro que a ideia da hackaton é ótima, mas não como rotina”, explica. “Mais cedo ou mais tarde, virar dezenas de madrugadas trabalhando acaba trazendo problemas de saúde”.

2. Ambição

O desejo de crescer na carreira é essencial para o sucesso, mas pode se converter em problema quando se transforma em excesso de competitividade. “Você se torna cego para o impacto que as suas ações têm sobre si mesmo e sobre os outros, e os seus relacionamentos são prejudicados”, alerta Annie McKee, professora da Universidade da Pensilvânia, em artigo para o site “Harvard Business Review”.

De acordo com o psicólogo e consultor Caio Farhat, profissionais ambiciosos ao extremo correm o risco de se transformar em competidores desenfreados. “Rat race [corrida de ratos, em tradução livre], em psicologia positiva, significa correr atrás de objetivos que não lhe trazem prazer, mas que supostamente trarão felicidade no futuro”, explica. “O problema é que as conquistas passam a ter cada vez menos valor”.

3. Senso de responsabilidade

Ter consciência sobre os seus deveres, e persegui-los de forma constante, é um dos pilares mais básicos do profissionalismo. No entanto, é preciso tomar cuidado para não confundir responsabilidade com submissão. “Muita gente se fixa apenas nas demandas da empresa, e acaba deixando de lado suas próprias exigências e necessidades”, explica Farhat.

Segundo McKee, o senso de responsabilidade excessivo cria “super-heróis”. “Muitas pessoas escondem qualquer coisa que possa fazê-las parecer fracas ou vulneráveis, como dificuldades em casa ou a sensação de esgotamento, porque sentem que precisam ser fortes o tempo todo”, escreve a professora.

O problema se agrava quando a obediência cega à empresa é recompensada com bônus, aumentos e promoções. Afinal, qual seria o problema de contrariar as suas vontades se você está ganhando bem? Mais cedo ou mais tarde, porém, negligenciar a própria felicidade cobrará seu preço.

4. Busca por propósito

As empresas não querem mais funcionários; elas buscam profissionais afinados com sua missão e seus valores. Ao mesmo tempo, grande parte dos profissionais, sobretudo os mais jovens, não desejam só um emprego: querem um trabalho com sentido e significado.

Tudo isso é ótimo, diz Teixeira, mas pode virar um pesadelo a depender da intensidade. “A busca por propósito pode criar uma insatisfação crônica com a própria carreira”, explica o especialista. É o que o especialista chama de ansiedade hedônica: a angústia por não estar se sentindo bem o tempo todo.

Como a realidade nem sempre acompanha esse ideal, também é possível ter mais dificuldade para escolher uma profissão ou área de especialização. Você pode acabar pulando de emprego em emprego, atrás de uma realização grandiosa que nunca chega a se materializar.

Fonte: EXAME.com

Cuidado com a ambição

Querer alcançar os resultados a qualquer custo é altamente prejudicial para as empresas e para os profissionais.

Cuidado com a ambição

Quando era criança, eu ouvia muitas histórias. Algumas tinham lobos, outras bruxas, fantasmas. Entretanto nada me assustava mais do que uma galinha, presenteada a um garoto pobre por um ato de bondade de uma fada disfarçada. Embora essa galinha fosse como todas as outras, colocando apenas um ovo por dia, esse ovo era diferente, era de ouro! E com isso o menino pobre foi ajudando sua família e prosperando porque, a cada dia, recebia de presente um ovo de ouro. Tudo ia bem, até que ele pensa em acelerar o processo e, ao invés de esperar um ovo por dia, decide matar a galinha e pegar logo todos os ovos dentro dela. No entanto, ao abri-la descobriu que ela era igual às outras e ele perde seu maior tesouro, deixando de receber um ovo de ouro por dia.

Leia também: Suas habilidades no trabalho mudam conforme a idade.

Ao final da história eu ficava transtornado com tamanha burrice. E pensava: “que garoto ganancioso! Já não era bom ter um ovo de ouro por dia? Pra quê querer tudo de uma só vez?” Bem, essa resposta demorou, mas chegou. Depois de quase 30 anos de formado e com algumas especializações (tanto na medicina quanto em business) percebo que esse garoto é mais comum do que eu podia imaginar. Ele está presente no executivo que tenta vencer seus pares em uma reunião diante do chefe. Naquele que mostra sua superioridade sobre o seu “oponente”, que na verdade é apenas um colega de trabalho com os mesmos desafios de sobrevivência e dores que ele.

O garoto ambicioso está presente também no funcionário que acredita que o trabalho é um barco de náufragos no qual cada um deve fazer o que puder para sobreviver e, por isso, entende como aceitável reter informações para que outro colega não avance em um trabalho. No colaborador que deixa vazar um comentário ácido que vai ferir a imagem de outra pessoa ou apenas lança um olhar para o chefe como alguém que não merecia estar naquela posição (“quem sabe se me derem uma chance…”).

Está ainda no pensamento corporativo, na verdade, num grupo de pessoas, mas se esconde sob o manto de “voz do corporativo” para tomar decisões que reduzem recursos e esperam, ainda assim, aumentar a produtividade. Todos esses modelos de pensamento mostram o foco no curto prazo sustentado por uma justificativa aparentemente racional, que é a demanda dos acionistas.

Um dos principais desafios para um novo pensamento de gestão não é encontrar a competência correta que vai fazer o colaborador produzir melhor, mas sim, escapar a tentação do curto prazo. O pensamento de “vencer o quarter” ou bater a meta do mês tira o foco do negócio e desloca para o medo (o principal prêmio é sobreviver aos cortes).

Tenho sido chamado para apoiar processos de mudança organizacional em diferentes setores, e o que me chama a atenção é que as empresas esperam mudar tudo sem mudar nada, ou seja, esperam que haja um novo mindset dos colaboradores, porém as premissas que sustentam os comportamentos não são questionadas. Assim, como diz o autor Chris Argyris,  tratam os sintomas, mas não atuam sobre os problemas reais, as causas que sustentam os comportamentos.

E uma delas é o “menino da galinha dos ovos de ouro” que mora dentro de nós. Algumas indústrias mais antenadas já estão mudando essas premissas saindo de metas de quarter para metas anuais e outras iniciativas como o Balanço Social (Sustentabilidade) e os estudos sobre engajamento nas organizações. Esses movimentos apontam para uma nova forma de pensar o que, realmente, é crescer e ter sucesso.

Por Roberto Aylmer – Professor internacional da Fundação Dom Cabral e especialista em gestão estratégica de pessoas

Fonte: vocesa.uol.com.br