O que fazer quando a empresa dos sonhos vira pesadelo

Como lidar com a frustração e o desânimo coletivo após reestruturações que causam a perda de benefícios e tornam o clima pesado

Empresa dos sonhos

cansado , insatisfeito (foto/Thinkstock)

A crise financeira e as mudanças na lei trabalhista são algumas das causas mais frequentes das reestruturações que podem culminar na perda de benefícios para os funcionários. Em situações assim, é comum que os novos contratados sejam pegos de surpresa pelo desânimo coletivo.

Para evitar esse cenário, uma das ferramentas mais poderosas que as companhias têm é reforçar ações de transparência, como a comunicação interna mais frequente e com alcance em todos os níveis. “Isso evita o clima de incerteza e, consequentemente, o aumento da rotatividade de pessoas, que pode trazer impactos negativos para a imagem corporativa e gerar custos desnecessários com novos processos de seleção, treinamento e desligamento”, afirma Celso Bazzola, diretor-executivo da consultoria de RH Bazz, em São Paulo.

Para os candidatos que buscam uma colocação, a orientação para não se decepcionar com o ambiente corporativo após a contratação é pesquisar informações atualizadas sobre a companhia dos sonhos, porque muitas delas vivem de um passado glorioso e um presente nem tanto. “É comum que, no processo seletivo, o candidato romantize a empresa, especialmente se for aquela na qual ele sempre quis estar”, diz Marcia Vazquez, gestora de capital humano na consultoria Thomas Case & Associados, em São Paulo. “Mas, embora existam desejos, aspirações e sonhos, a escolha de um emprego deve ser baseada em critérios racionais e estar em consonância com o plano de carreira”, diz.

Mesmo reunindo dados que ajudam a tomar decisões melhores, nenhuma delas terá garantia contra frustrações. “Aceitar um emprego novo envolve um risco, porque somente a vivência diária dará ao funcionário a oportunidade de ver como de fato é a rotina”, afirma Rosa Krausz, diretoria científica e de formação da Associação Brasileira de Coaching Executivo e Empresarial (ABRACEM).

A tendência do ser humano é mesmo fantasiar. Isso acontece nos relacionamentos e também no trabalho. “Idealizar sempre leva à frustração, porque a realidade nunca corresponde a 100% das expectativas”, diz Rosana Daniele Marques, gerente de Recursos Humanos da consultoria Crowe Horwath, em São Paulo. Portanto, faz parte da vivência no novo trabalho passar por um processo de desconstrução que envolve perdas – e ganhos. É nesse momento que o funcionário começa a fazer o balanço para avaliar se a companhia é um bom lugar para seguir carreira.

Quem já faz parte do quadro de uma empresa que atravessa tempos difíceis precisa de um esforço extra para manter a motivação ou avaliar com clareza uma mudança de rumo. É que ambientes depressivos, com falta crônica de reconhecimento, pessimismo e insatisfação, tendem a envolver até mesmo os otimistas e resilientes. “Reclamações contaminam os pensamentos e nos impedem de ter uma visão realista da situação e do ambiente”, afirma Rosa Krausz. “Pessoas que trabalham no que gostam e acreditam no que fazem podem se manter imunes ao desânimo coletivo, mas correm o risco de ser marginalizadas num local em que o padrão é a insatisfação.” Para vencer a situação, Rosa sugere uma estratégia: ouvir muito e falar pouco. “Participar das fofocas é se colocar em posição de fragilidade”, diz. “Ter uma postura de flexibilidade é a melhor saída.”

Ficar ou sair?

Dependendo do nível de descontentamento, sair do emprego é algo a se considerar. Isso acontece principalmente nos casos em que as medidas adotadas pela empresa batem de frente com as crenças pessoais do empregado. “Sempre que há divergências de valores e o profissional percebe que não há chances de reverter o quadro, o melhor é avaliar a busca por outra oportunidade”, afirma Celso Bazzola.

Quando a relação com a empresa está ruim a ponto de impactar o emocional, também é necessário avaliar melhor a permanência na função. Mas é preciso ter um plano B e uma reserva financeira e, antes de tomar a decisão, tentar um diálogo com o líder ou o setor de RH. “Conversar na empresa é importante, porque, algumas vezes, a situação crítica envolve apenas um setor”, diz Rosana Marques. “Um diálogo aberto pode permitir uma transferência de área e resolver a questão.”

Para Marcia Vazquez, vale também procurar a ajuda de um coach ou de um terapeuta para tentar ressignificar a experiência: “O importante é não tratar a frustração de maneira solitária, porque, assim, você continua com um único ponto de vista: o seu”.

Fonte: Exame.com

O lado ruim de trabalhar na empresa dos sonhos

O cenário de pleno emprego e a briga por mão de obra faz com que as empresas criem estratégias para reforçar suas marcas, convencer os candidatos de que são ótimos locais para se trabalhar e, assim, contratar os melhores.

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Essas ações ajudam os candidatos a conhecer um pouco sobre a cultura das companhias, mas podem, também, iludir os profissionais. Não há empresa perfeita, por isso é importante ter um olhar crítico sobre as organizações – mesmo as mais famosas e elogiadas.

Adriana Prates, presidente da Dasein Executive Search, empresa de recrutamento executivo de Belo Horizonte, conta como não se deixar enganar pela fama.

VOCÊ S/A – Qual o risco de escolher uma empresa somente pela marca?

 Adriana – Profissionais que fazem isso, muitas vezes, entram com expectativas muito altas na empresa e, ao enfrentar os problemas do dia a dia, ficam muito frustrados.

Por mais que uma empresa tenha políticas inovadoras, se o ser humano pudesse escolher, faria só que lhe dá prazer. Então, vai se decepcionar quando surgirem os problemas.

VOCÊ S/A – Por que que as pessoas se frustram mesmo quando conseguem um trabalho em uma empresa que admiram?

Adriana – Mais do que ter uma marca na testa, as pessoas estão buscando valores autênticos.  Querem mais clareza e coerência: que seja mantido no dia a dia o que foi vendido na hora da contratação. Os jovens acreditam que a empresa é exatamente igual ao que diz ser.

Quando enxergam a realidade da instituição e percebem as dificuldades que existem em todas as companhias, há um desapontamento muito forte.  Não existe empresa dos sonhos, o marketing deve traduzir os atributos de valor que, comparado às outras marcas, essa empresa possui de maneira mais acentuada.

VOCÊ S/A – Quais os benefícios de trabalhar em empresas menos conhecidas?

Adriana – Elas costumam oferecem remunerações e benefícios mais competitivos na hora de recrutar.  Outro ponto é que, quando um profissional entra em um ambiente com expectativas mais baixas, ele acaba se surpreendendo ao descobrir as boas práticas e valores da empresa, que não eram tão populares. Não é porque uma empresa é pouco conhecida que ela não tem uma gestão de pessoas estruturada. Ela também tem uma marca empregadora, só que menos agressiva.

 VOCÊ S/A – Em longo prazo, qual o impacto na carreira de alguém que só escolhe empresas pela marca?

 Adriana – O profissional delega a responsabilidade de crescer na carreira e ser bem sucedido à empresa em que trabalha. Entra numa zona de conforto e cria a ilusão de que as coisas são mais fáceis por trabalhar em uma empresa bastante conhecida.

A pessoa esquece que sucesso é algo individual e que o profissional deve ser o protagonista da sua carreira. Isso precisa estar claro, para não entrar na cultura organizacional errada e ter coerência entre seus valores pessoais e os da empresa.

Fonte: exame.abril.com.br